A vida e o tempo

Todos vamos embarcando na mesma nau, que é a vida, e todos navegamos com o mesmo vento, que é o tempo. E assim como na nau uns governam o leme, outros mareiam as velas; uns vigiam, outros dormem; uns passeiam, outros estão assentados; uns cantam, outros jogam, outros comem, outros nenhuma coisa fazem e todos igualmente caminham ao mesmo porto, assim nós, ainda que não pareça, insensivelmente vamos passando sempre e avizinhando-se cada um a seu fim. Porque se tu dormes e o tempo anda. Disse pouco em dizer que o tempo anda, porque corre, voa; mas advertiu bem em notar que nós dormimos, porque tendo os olhos abertos para ver que tudo passa, só para considerar que nós também passamos parece que os temos fechados.

 

(Pe. Antônio Vieira)

Tempo

Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera! São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São como as linhas que partem do centro para a circunferência, que, quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino, porque não há amor tão robusto, que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a natureza o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não tira, embota-lhe as setas, com que já não fere, abre-lhe os olhos, com que vê o que não via, e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge. A razão natural de toda esta diferença, é porque o tempo tira a novidade às coisas, descobre-lhes os defeitos, enfastia-lhes o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor? O mesmo amar é causa de não amar, e o ter amado muito, de amar menos.

(Pe. Antonio Vieira)