O anjo

No primeiro dia de férias, Deus organizou uma mega festa para homenagear o maior anjo que já apareceu em nosso planeta. No entanto a festa não se realizou, pois o grande homenageado faltou à cerimônia. Deus então ficou furioso e em conversa reservada, expliquei-lhe: – Foi mal aí! É que me perdi na chapada do Araripe.
Em sua grandeza, Ele me entendeu e perdoou. É por isso que comungo das idéias de Gregório de Matos, grande poeta barroco. Peco sempre que posso para que Deus esteja sempre afiado na praticar de sua misericórdia.
Lotação

Bem mas vamos ao que interessa: a história. Minhas férias começou bem mal. Logo no primeiro dia, o LICEU organizou um dia de lazer no Atlético Clube Serrano ( recebe este nome por ficar embaixo de uma serra), em Crato. No início a idéia despertou pouco interesse nos alunos e a excursão seria cancelada. Foi então que o diretor da escola teve a grande idéias de me convidar. Pronto! A idéia “bombou”. Se em princípio, o número de interessados lotaria um fusca, depois da confirmação de minha presença, se alugou três ônibus de três andares. Cheguei a ter pena do Edilberto: – Meu povo, não cabe mais!…
Recuperando a infância

Lá foi massa que só. Tomei sorvete, pulei de bunda canastra na piscina, fiz solzinho na areia, brinquei no tobogã… só não me estrepei no pau de coco porque lá só havia coco. À tarde inventei de fazer uma escalada na encosta para ver a paisagem. Você que me lê, se quiser contar à minha mãe o que fiz fique à vontade. Ela ficará orgulhosa da minha coragem. Só por favor ocultem o nome das pessoas que foram comigo, pois ela me deserdaria por andar em más companhias. Vejam se não tenho razão: Moisés e João Carlos do 2ºb, Danne e Wesley do 2ºa, Fabrícia e eu. Três belos casais, não é?
Dicas
Se você é um aluno que nunca foi ao Serrano, sugiro duas coisas:
1. façam a escalada. O lugar é fabuloso e a vista pode ser uma das sete maravilhas do mundo, ao Aconcágua, ao Pantanal, a uma foto 3×4 minha, às cataratas do Iguaçu…
2. voltem pelo mesmo lugar!!! E se um tal de Danne estiver com você e disser que conhece um outro caminho, mandem-no calar a boca. Pois nós caímos na dele e a chapada fechou nossa visão para o mundo e o que era trilha virou labirinto.
Perguntas ou respostas idiotas
Passado um tempo, aceitamos que estávamos perdidos e fomos caminhando por uma trilha que achávamos ser a correta. Passado outro tempo, alguém do grupo da excursão ligou para nós. O dialogo que se passou não interessa nem um pouco a essa história. Ela apenas será exposta por que me fez lembrar muito uma aula que dei no auditório sobre um texto de Jô Soares com o título de Perguntas ou respostas idiotas:
– Já tá todo mundo pronto pra ir embora, cadê vocês?
– Nós estamos perdidos!
– Onde?
…………………………………………………………………………………
A sede
Nesse tipo de situação, o maior problema é a sede. Em condições normais sou capaz de ficar até três dias sem um só gole d’água, mas basta ela não estar acessível para que a língua sofra com os efeitos do aquecimento global. A sede era tanta que eu daria 10 anos da minha vida por um copo de cuspe.
As buscas
Passado um terceiro tempo, ouvimos um barulho estranho, mas logo identificamos o som. Era a sirene do corpo de bombeiros que soava ao longe. Na certa vieram me buscar, quer dizer nos buscar, pensei. Em seguida três helicópteros rondavam a área. Pelo rádio do celular, o áudio estava horrível, mas conseguimos ouvir o final de notícia de que o governador já estava sabendo de toda a operação.
Confesso que me senti até emocionado. Uma lágrima inclusive caiu de meus olhos marejados. Pensei no discurso que daria. Peço desculpas por toda a preocupação e pelos esforços despendidos… capitalizei rapidamente a dinheirama que estava sendo gasta. O prejuízo com minha perda com certeza será maior, pensei. Mas ainda assim senti-me envergonhado.
A chegada
Finalmente chegamos e sem ajuda de ninguém. Neste instante exato, as meninas, que estavam ajoelhadas de frente para o padre Cícero, levantaram-se e deram graças a Deus. Os homens se abraçaram em gesto sincero de alegria. O prefeito do Crato sorria e batia palmas,no que foi seguido por todos os presentes.
Entretanto, percebi algo estranho. Tudo isso durou uns 40 segundos. E durante todo esse período ninguém se aproximou para me abraçar, nem sequer para um cumprimento.
Só quando novamente o auto-falante dos bombeiros pronunciou a notícia foi que percebi o real motivo da festa:
– Repito: o cavalo perdido na chapada foi encontrado. Está com a perna quebrada, mas vai ficar bem.
E nós ficamos com cara de égua!

